Pena mais que perfeita

Anúncios

Deixe um comentário

Arquivado em Sem categoria

Ainda ontem você chegou hoje.

Eu eu ainda te amo tanto.

Deixe um comentário

29 de julho de 2012 · 22:06

Cães raivosos precisam de focinheira

Jair Bolsonaro nada mais é que um grave sintoma social. A junção de anos de repressão sexual, militarismo, catolicismo e racismo brasileiro velado. Um sujeito deveras previsível, por sinal, e que é porta voz de uma subespécie que ladra silencioamente em nosso dia a dia.

Por mais imbecíl e leiga que essa figura possa ser, em tempos de espetacularização do pensamento e da propagação de idéais sem qualquer fundamento, ela precisa ser posta em seu lugar. Na sarjeta, num canil ou na cadeia (embora nesta última ele possa até gostar, visto que a tal aversão desmedida aos homossexuais revela muito a seu respeito).

E que seus seguidores encontrem outro pé para beijar (ou outro rabo para lamber).

Deixe um comentário

Arquivado em Sem categoria

O que há de errado com a Perla paraguaia?

A chamada bem que poderia ter sido convidativa, mas eu não cliquei: Lady Gaga lidera exercito gay em Alejandro.  Tanto é que nem me lembro em qual jornal ela estava. Folha, Globo ou Estadão talvez. Definitivamente não me lembro.

Preciso confessar, tive apenas três contatos até hoje com a diva do momento (que só agora entendi que parece ter vindo para ficar, tal a efusão xiliquenta ao redor do planeta). Sem brincadeira, até um mês atrás eu achava que ela era brasileira, e eu ainda pronunciava gagá (de velha abobalhada). Um cover da Madonna, provavelmente com uma pegada de forró eletrônico lá do Pará, uma desbocada polêmica que teria sido revelada ao mundo num desses dominicais qualquer. Enfim, eu não queria ver aquilo.

Então no dia seguinte vi outra chamada. Garota de 8 anos vira sensação na web depois de imitar Lady Gaga em um show de talentos. Desta vez abri a matéria, afinal, gosto da crítica social e na psicologia também trabalho com crianças. Seria um prato cheio para o meu veneno verborrágico, mas desisti. Então percebi que era uma cantora internacional por conta da letra enrolada que saltava da boca da pequena coitada. Ao lado, o YouTube me indicava o clipe original. Vi e achei interessante. Era Paparazzi e tinha uma dose exagerada de cinismo que atacava um sistema retroalimentado por ela mesma. Mas enfim, a música era bacaninha e o bíceps do cara também.

O segundo contato aconteceu por meio de um assunto que temos em comum. Ela declarou à imprensa que tem lúpus, uma doença que existe em minha família. Abri a matéria, nada demais, material para paparazzi, ela sabe o que faz.

E o terceiro contato foi agora, há quatro minutos atrás, antes de eu começar a escrever este texto. Fui ver o tal exército gay liderado pela rainha definitiva do momento. Gostei do clipe, muito bem feito, a coreografia é fantástica, cenografia e figurino idem, embora a música nem tanto. Pra ser sincero, nada de novo. Ok, apenas.

Mas o que me motivou mesmo a escrever foi a chamada primeira que vi sobre o acontecimento histórico da última hora: o tal exército gay. E depois de assistir, só consigo me perguntar: porque gay? Os caras estão marchando liderados por Lady Gaga, tudo bem, mas isto não basta para serem classificados como gay (ou basta?). Os caras são belíssimos, dançam absurdamente, estão de roupas coladas e de couro, mas não se tocam! (Salvo em um flash, quase no final da obra, onde um encosta a mão no peito durinho do outro, não se sabe se para limpar uma gota de molho de macarrão, para pedir que ele atenda a porta ou para convidar a um rápido boquete. No máximo, ambíguo). De qualquer maneira, todos eles querem comer a Lady Gaga e esta deve ser a maior proximidade com o ser gay da atualidade: as bibas da vida real, todas elas, querem se enfiar entre as pernas da magrela esqusita (mais por histeria coletiva, por status entre os seus, mais por um apelo midiático, do que por desejo sexual).

Eis do que se trata, então: o que é ser gay e o que é ser homossexual? É a mesma coisa? Posso ser considerado gay se não me sinto bem naquela muvuca eufórica que é a Parada? A última vez que lá estive um doido apertou minha bunda enquanto entoava com detalhes perfeitos a dublagem de To The Left, da Beyoncè. E olha que eu estava de mãos dadas com meu namorado. Ali, definitivamente, não era o meu lugar. Eu não gosto de dance music, detesto baladas, odeio reuniões sociais regadas a gritos de arrasa bee!, não estou ligado no que se deve ou não usar em matéria de moda, não quero compartilhar sobre operações tanquinho no estilo Man‘s Health de ser, odeio eventos onde só tem gente bonita que só sabe falar sobre sua última viagem, seu último bofe, sua última ferveção na nigth, sua próxima aquisição (seja ela emocional ou financeira). Isso tudo soa ser tão gay…  E ao mesmo tempo nada disso para mim é ser gay. Acho então que aí deve estar a origem de uma expressão que vez ou outra escuto quando conto sobre minha orientação sexual (e que me chateia muito): você é o gay mais hétero que já conheci. Como se eu precisasse de uma chancela de normalidade para ser justificado.

O que me incomoda de fato é o estereótipo a qual fui comparado toda vez que saí do armário. Que é o mesmo estereótipo que boa parte das pessoas gays que conheço fazem questão de incorporar. E toda incorporação é placada, não tem juízo de crítica nem é contraposta aos  valores individuais do sujeito incorporado. É como se as pessoas saíssem de um ciclo fechado e sufocante e acabassem por entrar em outro. Identidades são abaladas, costumes são adotados, gostos são modificados e uma nova forma de prisão é decretada com o nome de cultura. Isso porque acho meio impossível tanta gente gostar das mesmas coisas, terem o mesmo comportamento, se vestirem de maneira tão igual, falarem de forma tão parecida, achando que estão se divertindo ou se diferenciando, sendo autênticos,  mas sem a menor capacidade crítica sobre suas atitudes. E enquanto a anulação do Eu for tão gritante e se manifestar de maneira tão eufórica e intimidadora, sempre serão reforçados os argumentos daqueles que nos chamam de ‘não naturais’ e nos execram nos púlpitos, se utilizando de comportamentos corriqueiros entre os gays para dizer que não temos condições de criar uma outra pessoa. Considerando a falta de personalidade vigente em eventos como a Parada Gay, por exemplo, consigo entender um pouco o lado deles. É facil explicar para uma criança porque dois homens estão de mãos dadas. Difícil é explicar porque aqueles três grandões estão se beijando ao mesmo tempo ou porque eles estão transando a céu aberto.

O exército da Lady Gaga só é gay por marchar atrás da Lady Gaga. Os soldados não precisam mais comer um ao outro para serem considerados aberrações. Isso já ocorre de maneira automática ao simplesmente adotarmos um comportamento escolhido por outros, cheio de maneirismos, linguajares e afetações, que, em muitas vezes, estão longe demais da natureza particular do sujeito e são antítese de uma visão respeitosa que queremos ter diante da sociedade.

De qualquer maneira, não estou aqui pedindo um enquadre. Tampouco clamando por mudanças no universo gay fashonista Não quero que me falem se sou isso, se sou aquilo, meio este ou meio aquele. Não abro mão de minhas qualidades particulares para simplesmente fazer parte de um grupo. Continuo superestimando a solidão ou  me satisfazendo com o mundinho sem glamour de uma vida de casal bem reservada, seja aos som do jazz, samba de raiz ou da Perla paraguaia. Talvez um dia eu possa ser pego de calça curta por isso.  Mas continuo pagando para ver.

Prefiro, de qualquer maneira, continuar apegado a uma máxima do Woody Allen (e que sempre é repetida por uma pessoa muito importante em minha vida): Eu nunca faria parte de um grupo que me aceitasse como membro.

Obrigado, Lady Gaga! Mas eu passo.Obrigado, Lady Gaga! Mas eu passo.

2 Comentários

Arquivado em Esperneadas

de que modo mesmo?

Para começar, um pequeno espetáculo. Personagens, cenário, mercadorias, imagens e um você mesmo (que pode muito bem ser um eu mesmo) cheio de entusiasmo e atitude. Tempo da ação: início do século XXI. Você sobreviveu a mais um dia do caos urbano — trânsito, trabalho, trânsito, falta de tempo, trânsito, de ânimo, trânsito, de estímulo, trânsito, calor, calor, calor e umas duas ligações de telemarketing ativo. Enfim, vida real demais para o seu  (e meu) gosto. Agora é hora de relaxar nesta quinta-feira à noite que antecede um feriado prolongado. Você olha para aquela revista sob o vasinho vitoriano que dá um ar retrô-clean à sua saleta decorada com o jeitinho Tok&Stok de ser. É hora de ler a revista DOM (mas jura que vai colocá-la de volta pra não atrapalhar a decoração? Afinal, só o Dostoievsky apoiando o cinzeiro e o Caio Fernando Abreu dando vida ao abajour, deixarão sua casa com uma sisudez inaceitável ao seu ciclo de amigos culturetes).

Bofescândalo na capa! Um olhar de quem quer te comer, um queixo dentro dos padrões e um abdome esculpido em mármore do inferno. Peito lisinho bem higienizado, dentes branquíssimos, poucos pelos nas coxas, um corte de cabelo bagunçado igual ao de todo mundo pra ficar diferente. Uma leve orelhinha de abano bem pensada pra dar ‘aquele’ charme  tal qual estrabismo da Cristiana Oliveira. Mamilos discretos e pontudinhos (delícia!). Além, é claro, do apelo arrasa quarteirão: a sunga branca! Depois de tanta informação, você acaba por reconhecer o real motivo que te fez levar a revista meio que sem querer entre a Veja e a Bravo sob o olhar inquisitor do jornaleiro: a bendita sunga branca!

Responda rápido: o que você acha do barebacking? Logo na primeira matéria você é intimado a emitir uma opinião. Formada, de preferência! Mas pense um pouco: a Revista Dom não quer demonizar nem glamorizar o sexo sem camisinha e os seus adeptos. Quer ouvir os prós e os contras e tentar enxergar de modo unidimensional os diversos ângulos dessa questão e se propõe, portanto, a gerar mais compreensão. Tudo isso em, no máximo, três páginas. Ótimo! Você está pronto pra discutir sobre essa prática nos esquentas da vida pelas próximas duas semanas.

Logo depois, pegando carona na moda muçulmana causada por livros como O Caçador de Pipas e O Livreiro de Cabul, o ghostwriter de Bruna Surfistinha – e que também assina a matéria sobre o barebacking – cosmopoliza o leitor ao revelar, em primeira mão, o que acontece na literatura mundial para as pessoas que vivem de outro modo. A bola da vez é Michel Luongo: autor de um intrigante best-seller – que é bem provável que você não leia graças à falta de tradução para o português – sobre a homossexualidade entre os leitores do alcorão. Bee, o esquenta está ficando cada vez mais promissor!

Além disso, o de sempre: matérias que ditam quais estilistas devem ser devorados, como se deve usar terno e gravata, porque o rosa-roxo-lilás é o que há, como se deve usar sandália, porque você deve se jogar em Chicago, o que você deve comer pra se desintoxicar, o que se deve usar para ter uma pele respeitável, como ser feliz sozinho, como ser feliz junto, como ser feliz com o seu pinto. Ah, tem também uma matéria sobre carros envenenados e a vida bela das baladas de alto estilo (um eufemismo para caro-pra-caralho-portanto-pão-com-ovo-passe-longe!).

Mas enfim, ainda é quinta à noite, véspera de feriado, hora de ser feliz com a pele e amar o pinto (que pode ser o meu, o seu, o nosso, o de quem quiser, o de quem vier…). É hora de pegar o Pálio, sonhando com um carro envenenado, e estourar o cartão numa baladinha alto estilo. E eu (que poderia muito bem ser você) nem percebi que estou a ler um número bem velho da revista. Mas quem se importa, não é mesmo? Nessa nossa sociedade do espetáculo, onde o espaço político e social é substituído pela visibilidade instantânea e pela coluna social – além da fama e da beleza serem mais importantes que a cidadania – nada melhor que mais uma revista se propondo a, de outra maneira, manter os mesmos padrões. Do MESMO modo que a Cláudia, a Marie Claire, a Nova, a Capricho, a Playboy…

Um brinde à diversidade jornalística, meu bem! E se a taça for lilás, melhor ainda.

4 Comentários

Arquivado em Salve a diferença!

Algo (in)comum.

Takariho Fujinuma tinha 37 anos e vivia em Tókio.

Takariho estava desempregado e era solteiro. Quando estamos desempregados somos suscetíveis a  ótimas idéias, idéias mirabolandes, péssimas idéias e ainda sobra tempo para a engenharia da vida alheia e para  a descoberta de coisas interessantes. Ao seguir passo a passo todo esse protocolo de pensamentos  (cartesiano, como todo bom japonês), a coisa interessante que Takariho Fujinuma descobriu é que o servio de auxílio à lista de Tókio cobra apenas para informar números telefônicos, e não por conversar com seus clientes.

Takariho Fujinuma está preso há dois anos depois de ter ligado mais de 2.600 vezes para a Nippon Telegraph and Telephone (que seria a Telefônica de lá). Foi denunciado pela empresa por obstrução do serviço de informações. “Sou solteiro e fiz isso para me esquecer da solidão. Eu me limitava a pedir apenas que conversassem comigo e não me deixassem na espera. Mas sempre, de maneira muito educada, me pediam  para continuar esperando”.  Uma história triste.

Já Eduardo Corrêa não vive em Tókio e eu não sei quantos anos ele tem.

Ele não está desempregado, o que prova que ótimas idéias, idéias mirabolantes, péssimas idéias, engenharia da vida alheia e a descoberta de coisas interessantes não é privilégio de quem engrossa as estatísticas do desemprego mundial. Ele é presidente da recém-criada Escola de Samba Arco Íris. Eduardo Corrêa se orgulha ao declarar que sua agremiação será a primeira escola integrada completamente por gays, lésbicas, e transexuais, e que levará ao carnaval paulista mais liberdade, criatividade e ousadia. Eduardo combate preconceitos. Eduardo quer criar um espaço no qual a comunidade GLBT possa se divertir sem se sentir excluída. Eduardo tem boas intenções. É bem provável que o Eduardo saiba o pajubá. Eduardo é gente que faz!

Como presidente de Escola de Samba, Eduardo entende muito bem de carnaval. E graças a ele eu descobri que estive errado a respeito da festa de Momo por uma vida inteira. Não riam de mim, mas sempre achei que o carnaval só fosse menos gay que a Parada Gay!  Quanta ingenuidade!  Mas  agora começo a enteder: se eu cerrar o olho bem assim,  se der uma mudadinha de foco acolá e fuçar um pouquinho nos bastidores, vou perceber que nenhum Almada,  Fischer ou Mott aparece nos créditos ao final de cada desfile! Que absurdo!!

Como, meudeusdocéu, o carnaval sobreviveu até hoje sem liberdade, criatividade e ousadia? Sou um inocente, gente! Ei, dá pra parar de rir de mim?

Enfim, o que gostaria mesmo de fazer como boa ação de 2010 era dar o telefone do Eduardo Corrêa para o Takariho Fujinuma de 37 anos que vive em Tókio. Acredito que não poderão reclamar de falta de assunto: quando falarem sobre segregação, ambos se mostrarão profundos conhecedores do tema.

Homenagem ao Centenário da Imigração Japonesa no Carnaval Paulista: faltou Pajubá!

*****

Para saber mais sobre Takariho Fujinuma ligue aqui.

Para saber mais sobre Eduardo Corrêa, sambe aqui!

3 Comentários

Arquivado em Gente civilizada!

Nazismo ligth. Kukluxklan soft.

Não dá pra fugir do que se é. Seja de maneira velada em prol da aceitação pública, ou de maneira escancarada (porém, mais sincera e verdadeira), a essência de algo ou alguém não consegue fugir por muito tempo dos olhos mais atentos de quem não se contenta com a simples manutenção do status quo.

Com o catolicismo não haveria de ser diferente. Se retomarmos a história, observamos sempre as mesmas posições arraigadas em sua estrutura: a da intolerância ao diferente, a da supremacia dos iguais.

Várias hipóteses podem ser levantadas para justificar tal mecanismo de defesa de um ‘ego’ tão enfraquecido em sua essência, como é o da igreja romana (e conseqüentemente, dos seus propagadores). Freud, aliás, muito bem o fez em obras como “Psicologia das Massas e Análise do Eu” e o “O Mal Estar na Cultura”.

Mas não se faz necessária uma análise psicanalítica aprofundada da história católica para se deparar com o obvio (embora estes estudos sejam interessantíssimos). Basta olhar os tão bem conhecidos (mas nem por isso elucidados) adventos da santa inquisição, da escravidão e do holocausto, por exemplo.

Os resultados dos julgamentos da inquisição eram, em sua maioria, a matança. Uma fogueira em praça pública com ordens do santo papa para queimar pessoas não adaptadas. A pena de morte em nome de deus. Uma leitura bíblica que era conveniente somente ao discurso cristão sombrio daqueles tempos infernais. Não bastava queimar um semelhante: havia de se louvar a expiação. O versículo onde se lia “não matarás” podia muito bem ser abafado pelo clamor vazio dos argumentos de “ela é uma bruxa”. O ocultismo era o crachá do satanista. Assim como o conhecimento, que o diga Galileu Galilei.

A conveniência também se fez presente no discurso católico ante a escravidão. Uma forma peculiar de leitura bíblica dava sustentação e apoio aos escravocratas de plantão: se deus criou o homem à sua imagem e semelhança é evidente que a criatura deveria vir com o conhecimento da  benevolente existência de seu criador como item de fábrica. Deveria ser intrínseca aos filhos de deus a semente da fé monoteísta. Que raio de filho é este que desconhece a existência (e as regras) de seu pai?

Pois bem, os filhos da África eram politeístas e nunca tinham ouvido falar num deus loiro de olhos azuis. Um aba que criou o mundo em sete dias, tirou uma folga básica depois e — não por ter feito algo de errado durante a criação, mas por exclusiva culpa e desobediência de sua cria — teve que voltar como um messias e morrer preso numa cruz. Uma história tão mais absurda que a dos deuses pagãos africanos, mas que era protegida por armas de fogo e instrumentos de tortura, portanto, verdade única a ser aceita.

Se os desgraçados não sabiam da existência de deus, não poderiam ser catalogados como filhos à imagem e semelhança do bonitão. Inclusive nem se pareciam com ele. E se não eram filhos do criador, só poderiam ser criaturas servis aos homens como qualquer outro animal. Poderiam ser domesticados e escravizados com aval bíblico e papal. Eis o catolicismo dando um up à economia mundial ao abençoar um mercado infinitamente rentável em meio à crise daqueles tempos de dinheiro no umbral. Que o negro não era filho de deus era o saber católico da época. E saber, em qualquer tempo, é um exercício de poder.

Aliás, o exercício do poder (que sempre tem em vista a própria conveniência, e não o amor ao próximo como a si mesmo) se apresenta de várias formas. Das mais escandalosas às mais discretinhas. A omissão sempre foi a mais covarde manifestação de poder daquele que detém muito poder. E esse foi o papel da igreja em época de holocausto: não se manifestar. Essa avaliação pode até dispensar a arqueologia do saber ou genealogia do poder foucaltianas. Isso foi ontem! O Joseph Ratzinger estava lá. Na SS, inclusive. (Assim como sempre esteve na liderança do “Santo Oficio da Inquisição”, órgão ainda importantíssimo do Vaticano).

E como essência é essência e não dá pra se fugir do que se é, a igreja, por meio da CNBB, não poderia deixar de se mostrar mais uma vez inquisitória, conveniente e segregacionista. Só que dessa vez mais soft, mais ligth, sem tantas armas de fogo, chibatas ou fogueiras. Somente jogando na maciota com o poder político, portanto, muito mais perigosa e ardilosa. E essa afirmação dispensa qualquer tipo de argumento. Basta uma pessoa com um mínimo de senso crítico ler um panfleto distribuído pela CNBB em dezembro último para saber do que se trata:

O impresso é um símbolo da junção das duas formas mais baixas de dominação. Da igreja, que bloqueou enquanto pode o acesso do homem ao conhecimento, com o poder político arcaico, sustentado no analfabetismo funcional de um povo que vota. E é só isso que interessa na manutenção da podridão disseminada pela ignorância: o voto da maioria. Se deve manter  “a voz do povo que é de deus” desinformada para que se continue votando mal. Neste sentido é fácil demais influenciar de maneira escusa a constituição política de um estado que deveria ser laico.

A maioria das pessoas não questiona mais a religião. Nem quer saber se o papa Chico Bento XVI foi nazista, se foi da Santa Inquisição ou se teve algum antepassado carrasco com uma tocha em punho. A maioria das pessoas está preocupada com o poder aquisitivo do seu contracheque. Ou em simplesmente ter ou manter tal benefício. ‘Será que vou conseguir cachear meu cabelo como o da Helena’ ou ‘vai dar pra comprar a sandália da Ivete Sangalo?’ é o máximo que se pode exigir daquele que está mortificado por uma vida globalizada, onde o sujeito não mais existe e o pensamento dá lugar a uma massa violentada e consumista. Uma missa  para um católico não-praticante (que é como a maioria se declarou no último senso nacional) acaba por ser nada mais que uma hora de ladainhas entre o futebol de domingo à tarde e o Fantástico (afinal, quem ainda agüenta a voz do Faustão?).

Não interessa mais a quase ninguém pensar se existem milhares de homossexuais se suicidando pelo mundo por suas famílias acreditarem que de fato eles são aberrações. Pouco importa se o bispo pernambucano excomungou a família de uma garota de nove anos de idade que engravidou de gêmeos depois de ser estuprada e abortou. Dá trabalho demais saber quantas mulheres são condenadas à pena de morte diariamente em açougues clandestinos de aborto espalhado por aí. Algumas delas grávidas de padres, inclusive.

Em épocas de Ku Klux Klan moderada a pena de morte existe e está nas mãos da igreja, que negocia os votos de um povo zumbizado ante a um poder político torpe e enfraquecido em sua raiz. Tem sido em nome de deus que pessoas espancam seus semelhantes com o argumento de “ele é uma aberração”. É clara a participação da igreja no número de mulheres que morrem em lugares imundos, sem nenhum padre por perto para lhes segurar a mão ou tentar convencê-las do perigo (ou da infelicidade) que pode ser o aborto. Não se pode lançar mão do corpo e sangue de cristo em substituição à célula-tronco embrionária para salvar a vida de alguém com leucemia.

E foi ante à pressão da CNBB — que representa essa entidade quase virtual que é a maioria católica em um estado que hipoteticamente deveria ser laico — que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva se curvou e resolveu mudar o texto do 3º Programa Nacional de Direitos Humanos. No texto original, o Brasil apoiaria a aprovação dos projetos de lei que descriminalizam o aborto, que dispõem sobre a união civil de pessoas do mesmo sexo e que promovem a garantia do direito de adoção por casais homoafetivos. Esses itens salvariam vidas. E graças a deus isso foi apagado do programa.

Simples assim: em nome de cristo, seleciona tudo isso e aperta o delete.

*****

Que fique claro que eu sou a favor da vida e prezo demais pela família. Mas que fique mais claro ainda que meus maiores rivais nessa empreitada, que é manter-me vivo e ser família, têm sido a igreja e o estado. E que de todas as coisas erradas que fiz até hoje, só me arrependo de duas: uma delas é de ter votado em quem não me representa. A outra, de ter sido católico.

Graças a deus, erros como este eu não cometo nunca mais.

(E para visualizar melhor o tal panfleto, clique aqui.)

5 Comentários

Arquivado em Esperneadas